Café, Mel e Pescado: Os Setores que Lutam Contra as Novas Tarifas de Trump nos Estados Unidos
- Viveiro Fulanette e Moreno

- 16 de jun.
- 4 min de leitura
O cenário do comércio internacional entre Brasil e Estados Unidos enfrenta um novo período de turbulência com a proposta de uma rodada inédita de tarifas por parte do governo de Donald Trump. Nesta segunda-feira, representantes de setores estratégicos do agronegócio brasileiro participam de audiências públicas em Washington com um objetivo claro: reverter a sobretaxa de 25% que ameaça encarecer produtos brasileiros no mercado americano. Entre os itens mais afetados estão o café solúvel, o mel e os pescados, que agora buscam demonstrar sua importância essencial para a economia e o consumo dos próprios Estados Unidos.
A ofensiva tarifária é vista por especialistas como uma peça em um tabuleiro de negociações muito mais amplo. O governo americano busca concessões brasileiras em áreas como minerais críticos, terras raras, regulamentação de big techs e até mesmo sobre o sistema de pagamentos instantâneos (PIX). As tarifas propostas em junho são o resultado de investigações que abrangem desde o combate ao desmatamento ilegal até questões de pirataria e trabalho forçado. Embora uma lista de isenções tenha sido apresentada para proteger o mercado americano de altas excessivas de preços, setores específicos ficaram de fora dessa proteção e agora precisam lutar por sua sobrevivência comercial.
O Café Solúvel sob Pressão e a Dependência Americana
O café solúvel ocupa uma posição peculiar e preocupante nessa disputa comercial. Diferente do café em grão, torrado ou moído, que foram beneficiados por isenções, a versão solúvel tradicional permanece na mira do tarifaço. Essa exclusão é considerada ilógica por representantes do setor, especialmente porque os Estados Unidos possuem uma produção doméstica extremamente limitada, capaz de suprir apenas 6% da demanda interna. O restante do consumo americano é dependente de importações, com o Brasil e o México sendo os principais fornecedores.
A defesa do setor cafeeiro destaca que o Brasil respondeu por 37% de todo o café solúvel importado pelos EUA em 2024. A imposição de tarifas não apenas elevaria o preço para o consumidor final, mas também impactaria a própria economia americana, já que grande parte da agregação de valor — como o envase e a distribuição — é realizada por empresas sediadas nos Estados Unidos, gerando empregos locais. Além disso, a hipótese de uma reindustrialização rápida do setor nos EUA é vista com ceticismo, uma vez que a instalação de uma nova indústria de café solúvel demanda um investimento de longo prazo, levando entre quatro e cinco anos para se tornar operacional.
Mel Brasileiro: Um Fornecedor Insubstituível
Outro setor que busca isenção é o de mel, com uma argumentação baseada na impossibilidade de substituição imediata pelo mercado americano. O Brasil é o maior fornecedor de mel para os Estados Unidos, sendo responsável por impressionantes 83% do mel orgânico e 75% do mel convencional importado pelo país. A apicultura americana, por sua vez, foca primordialmente no serviço de polinização e na produção de mel convencional, não possuindo as condições ideais para competir no segmento orgânico, onde o Brasil domina.
A defesa ressalta que a imposição de taxas resultaria inevitavelmente na falta de mel orgânico nas prateleiras americanas e em um aumento drástico de preços. A conversão de áreas de produção convencional para orgânica nos EUA exigiria um período de transição de pelo menos um ano, tornando inviável uma substituição rápida do fornecimento brasileiro. Um ponto curioso destacado por exportadores é o desconhecimento de autoridades americanas sobre a origem do mel que consomem diariamente, o que reforça a necessidade de um trabalho contínuo de conscientização e lobby em Washington para garantir o apoio ao produto brasileiro.
Pescados: Sustentabilidade e Segurança Alimentar
O setor de pescados brasileiro também enfrenta o risco de uma tarifação que pode chegar a 37,5%. A defesa brasileira conta com o apoio da própria National Fisheries Institute (NFI), a maior associação de pescados dos Estados Unidos, que teme os impactos inflacionários sobre o consumidor americano. O principal argumento é que o Brasil não concorre diretamente com os produtores dos EUA; ao contrário, funciona como um fornecedor estratégico e de segurança, ajudando a reduzir a dependência americana em relação à China, que atualmente lidera o fornecimento global de tilápia.
Além da questão econômica, a indústria de pescados destaca seus altos padrões sanitários, trabalhistas e ambientais. A produção brasileira é apresentada como sustentável, baseada predominantemente na pesca artesanal e familiar, o que minimiza o impacto ambiental em comparação com grandes operações industriais. Representantes americanos do setor já manifestaram ao Escritório de Comércio dos EUA que os estoques pesqueiros domésticos estão em seu limite sustentável, tornando as importações internacionais, como as do Brasil, vitais para garantir a segurança alimentar sem pressionar ainda mais a inflação.
O Futuro das Negociações em Washington
As audiências desta segunda-feira são um passo crucial em uma jornada diplomática e comercial complexa. A estratégia brasileira foca em mostrar que a punição aos produtos nacionais acaba por prejudicar o próprio cidadão americano, elevando o custo de vida e ameaçando empregos em indústrias que dependem dessas matérias-primas. Enquanto o café, o mel e o pescado tentam escapar das taxas, o cenário permanece de incerteza, com o Brasil buscando manter sua posição de parceiro comercial indispensável em um mercado cada vez mais marcado por políticas protecionistas e retaliações comerciais.




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